Ricardo Semler e a Obsolescência

É animador o artigo de Semler na Folha SP. Pleiteia novas soluções na Educação e alerta a elite do empresariado que fundou a ONG Todos Pela Educação: “Ficar tirando a média de um conceito medíocre é inócuo”. #legeduca
Evidentemente, o autor sabe que
o poder de influência dessa ONG é incomensurável e que as políticas públicas acabarão seguindo seus passos. E, ao que parece (cf. artigo, kkk excuiram mas tenho o link da folha e printscreen no final do post)), Semler gostaria de ver o empresariado tirar a Educação da mediocridade ao invés de ver Todos empresários sugados Pela discussão inócua sobre Educação. Isso é muito bom.
Também é bom falar do novo papel do professor e “que o empresário tem dificuldade de entender o seu próprio métier, quem dirá EDUCAÇÃO”.
Entretanto, o que de fato é animador é ver administrador e educador colocados na mesma frase. Isso permite remeter a discussão para questões que nos parecem centrais para inovar a Educação.
Qual a interface entre gestão e educação na escola? Em que medida a gestão escolar está implicada no fracasso da educação? Em que medida a gestão política da educação está implicada no fracasso da gestão escolar?
Educação e Gestão na Escola Pública é um estudo de caso sobre fracasso escolar que apresenta a vida cotidiana da escola em resposta a estas questões. A modelagem sistêmica da vida escolar permite apreender a obsolescência da gestão como princípio degenerativo da educação.
Em termos empresariais, a pesquisa explana como e por que é verdadeiro dizer que ‘toda empresa tem a cara do dono’. A visão do cotidiano da escola pública permite entender que o fracasso escolar é a cara da gestão pública na educação, quer no âmbito da gestão escolar, quer no âmbito da gestão política.
A pesquisa também mostra que esse fracasso em cascata independe de intenções boas ou más. A obsolescência da pedagogia e da didática foi identificada, estudada e dispõe de alternativas inovadoras em termos de concepções pedagógicas e de estratégias didáticas. E a gestão?
Bem, a gestão é obsoleta, ou seja, a lógica operacional estabelecida pela gestão é obsoleta, tanto da escola quanto do sistema de ensino.
Semler tem razão ao criticar as “mexidas” feitas na escola: “a diretora faz cursos de gestão, aparecem computadores e reciclagem para professores. Com o tempo, tudo volta ao que era.” O empresário reconhece a inviabilidade econômica das “mexidas”, mas cabe aqui ir além.
“Mexidas” na escola são mais que inviáveis, são inócuas. E a razão é simples: curso de gestão para os diretores, equipamentos e curso de capacitação para professores não mudam a lógica obsoleta do modelo de gestão da educação pública.
Há de se concordar que “Os investimentos e estudos deveriam ir para formatos novos”, mas seria ingênuo acreditar que a inovação no papel do professor (tutor) ou que a inovação nos serviços gerais da escola (Escola Charter) podem anteceder à inovação na lógica da educação.
O estudo permite ver a contradição entre os princípios da Administração “Taylorista” e os paradigmas da Educação do século XXI, e quais as conseqüências sócio-cognitivas desse paradoxo. Assim, cabe alertar que a sustentabilidade social necessita com urgência que investimentos e estudos se voltem para a concepção de um novo formato de sistema educacional.


 

São Paulo, segunda-feira, 09 de maio de 2011 
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RICARDO SEMLER

Professores são obsoletos


Investimentos deveriam criar novas soluções em educação, possibilitando a formação de tutores


A Westinghouse era um gigante nos anos 20. Numa fábrica com 12 mil funcionários, conduziram uma experiência seminal. Aumentaram a iluminação e a produtividade aumentou. Depois, voltaram ao que era. A produtividade aumentou mais! Esse experimento provou que a intervenção gera mudanças temporárias, e não difere dos empresários que intervêm em escolas.
No começo a diretora faz cursos de gestão, aparecem computadores e reciclagem para professores. Com o tempo, tudo volta ao que era. E os valores que são colocados nessas escolas "mexidas" tornariam o orçamento da rede publica inviável, portanto, são artificiais.
Duas boas entidades, Instituto Ayrton Senna e Todos Pela Educação colocaram pesquisadores para achar o denominador comum de centenas de estudos sobre melhorias na sala de aula -o resultado, logicamente, não passa de um conjunto de platitudes.
São quatro as conclusões: um, o professor tem que ser bom. Os 20% melhores ensinam mais do que os 20% piores. Ué...
Segundo, que turmas menores aprendem mais -ou seja, não é bom ter 48 alunos na classe. Certo.
Terceiro, que é melhor que a turma seja homogênea -se for para aprender mais matemática e português-, mas seria melhor que fosse heterogênea -se for para outras matérias. Ops...
Quarto, que alunos aprendem mais se houver mais aulas.
Hmmm... Sei que faço uma caricatura, mas não difere disso. A culpa não é dos empresários -têm boas intenções-, mas cabe lembrar que 92,3% das empresas quebram ou são vendidas a cada 20 anos, o que sugere que o empresário tem dificuldade de entender do seu próprio métier, quem dirá educação.
Que empresários escolheriam um professor de sociologia, depois um torneiro mecânico e por fim uma guerrilheira para comandar o país?
Teriam acertado na mosca, o país nunca andou tão para a frente.
Perguntei, numa palestra em Londres para 59 ministros de Educação: por que as férias são tão compridas no verão? Nem um deles sabia -é assim porque as escolas eram rurais, e os pais precisavam da criançada para ajudar na colheita, por dois meses. É assim até hoje.
Melhorias marginais na escola são como motor novo e pintura metálica num Fusca 77.
O papel do professor está obsoletado. Pede-se demais: que entenda de uma matéria, mas cruze com outras; que saiba manter 39 meninos quietos; que lide com as sacanagens da carreira, com diretoras ranzinzas e pais perdidos; e ainda aprendam tudo sobre bullying e "bullshit".
Os investimentos e estudos deveriam ir para formatos novos, com professores virando os tutores esclarecidos da paideia grega e chamando à escola os milhões de recém-formados e aposentados que poderiam partilhar suas paixões.
Ficar tirando a média de um conceito medíocre é inócuo. Correr atrás de resultados melhores no Pisa parece avanço, mas não passa de uma polida no capô do Fusca.

RICARDO SEMLER, 51, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros ("Virando a Própria Mesa" e "Você Está Louco") que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.

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3 comentários:

  1. Antonio Sergio Bichir10/06/2011 23:32

    Valéria, o que vc quer dizer com 'gestão da educação'? Envolve o tema publico/privado? Envolve o tema 'formação docente'? Envolve o tema 'avaliação de rendimento'? Envolve o tema 'financiamento da educação pública'? Envolve o tema da 'disciplina' em sala de aula? Envolve o tema 'estatudo da criança e do adolescente? Ufa... Envolve o quê? bj.

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  2. Bichir, o modelo de gestão é o mesmo em todos os aspectos da educação, independente do tema. O problema é que todos os processos são estruturados e conduzidos segundo os princípios do modelo burocrático, das políticas públicas nacionais até cada aula e cada relação humana.

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  3. Antonio Sergio Bichir12/06/2011 23:58

    Bem, nesse caso o problema não se limita à gestão, mas à aplicação de políticas. O elemento mais daninho é o próprio professor: não reconhece ('n' razões; algumas ok; outras, não) qualquer mudança e recusa-se a implementá-la porque não concorda com o 'processo'. E, acho, tem toda a razão. A coisa toda (apostilas, programas de treinamento, material didático) é muito distante do que vive o professor em sala de aula. Não acho que seja uma questão de ter ou não ter política pública; algum tipo de parâmetro/diretriz básica é importante para aferir rendimento etc e tal. Mas, chega na sala de aula e nada acontece; ou melhor: acontece o que o professor fizer acontecer. Lá no fundo, no fundo mesmo, não é o burocrático que pesa (ainda que pese e... muito!): é o bom mocismo pedagógico e a carga de preconceito social que existe e se transfere para os 'coitadinhos' (em muitos casos, verdadeiros bandidos que se 'escondem' nas escolas, protegidos pelo ECA e por promotores e juízes que jamais puseram seus belos pezinhos na rede pública). As escolas deixaram - há muito - de ser escolas; demagogia e populismo (notadamente dos governos estaduais e municipais). Um puta medo das 'massas'. Acho que vai por aí... bj.

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